Luciano Alabarse
30/9/2009 - SATED/RS
Entrevista realizada por José Antonio Vargas: zapvargas@gmail.com

A frente do "Em Cena" em todos esses anos, com muito trabalho e esforço, você colhe o êxito do projeto, mas também, me parece, precisa administrar egos, inveja e toda a parte burocrática que envolve um evento dessa dimensão.
Luciano Alabarse - Faz parte de qualquer trabalho. Não existe só mel e ambrosia no Olimpo, não? Os próprios deuses viviam situações de confrontação cotidiana.O que sobrará para nós, pobres mortais! Mas gosto muito do que faço, esse festival, hoje respeitado mundialmente, é verdadeiramente um dos cartões de apresentação de Porto Alegre. Um professor que voltou da Austrália há pouco me contou que lá lhe pediram informações sobre o evento. É genial e desgastante ao mesmo tempo. Mas tudo o que vale a pena, se a gente pensar bem, demanda empenho, dedicação, persistência, força, diálogo. Os percalços do caminho podem ser instrumentos de amadurecimento muito importantes. Importa mesmo é que o nosso Em Cena cresça cada vez mais. No que depender de mim, é isso que acontecerá.
Pode ser uma leitura bastante equivocada, mas a sua montagem de "Édipo" me remeteu de alguma forma a alguns filmes do Scorcese, basicamente, pela violência dramática pontuada pela música de rock.
Luciano Alabarse - Nunca tinha pensado no Scorcese como fonte de referência para o meu trabalho de diretor teatral. Mas eu o admiro muito, pela integridade de suas intenções cinematográficas, integridade que eu busco a cada montagem, cada trabalho novo. O rock edipiano me pareceu a melhor escolha para pontuar a encenação. E está ali por isso, porque as canções sangrentas dos Stones cabiam como uma luva para ilustrar a concepção do espetáculo.
A sua excitação pelo teatro ainda é a mesma, digamos assim, como um adolescente descobrindo a masturbação?
Luciano Alabarse - Uau, penso que não, inclusive porque um adolescente descobrindo as delícias do sexo é, em geral, rapidinho em atingir seus objetivos orgasmáticos. Eu, um senhor com mais de trinta anos de carreira, já aprendi a prolongar meu gozo teatral ao máximo.
Um diretor pode contar, conduzir, acrescentar, ou mesmo, estragar uma história. Você já se viu em todas as situações?
Luciano Alabarse - Como diretor, procuro sempre estar a serviço do texto escolhido. Nada mais pedante do que um diretor se achar maior e acima do texto ou do projeto que está conduzindo. No teatro, a arrogância é inimiga mortal do resultado eficiente, do clímax estético. Hipoteticamente falando, um diretor é o grande responsável pelo exito ou fracasso de uma empreitada cênica. E se tudo chega a bons resultados, deve ter humildade e grandeza para dividir os méritos com sua equipe, seu elenco. Estudo pra caramba antes de iniciar os ensaios de um espetáculo. Preciso estar preparado teoricamente para todas as questões que fatalmente irão surgir. Nesse sentido, não sou nem um pouco preguiçoso. Me preparo, vou à luta. Quando chego a ensaiar, tenho muita clareza do que pretendo com aquela encenação. Sempre a serviço do todos. Vaidade pra mim, no palco, é isso: fazer o melhor sem ficar deslumbrado, sabendo que teatro é arte coletiva. Minha função é aglutinar e potencializar o talento do grupo. E é isso que me motiva. Sempre.
Na elaboração de um projeto você já tem a equipe com quem trabalhar em mente?
Luciano Alabarse - Tenho meus colaboradores habituais, os que me conhecem há tempos, com quem eu troco todas as figurinhas teatrais possíveis. Com atores é a mesma coisa. Alguns me acompanham há anos. Isso não impede que eu procure trabalhar com gente nova, com as quais nunca trabalhei. Alguns amigos de teatro falam que eu tenho um grupo informal e que fique assim como está. Não me vejo mais pertencendo a um grupo específico, assim constituído. Mas tenho pessoas que confio cegamente: Marcelo Adams, Luiz Paulo Vasconcellos, Sandra Dani, Ida Celina, Cláudia de Bem, Sylvia Moreira, Rô Cortinhas, tantos...meu deus! Moysés Lopes, meu maestro soberano, que cuida das minhas trilhas e que me traduz perfeitamente nesse quesito. A lista é grande.
Suas últimas montagens, de "clássicos", são projetos grandes em curtíssimas temporadas. Esses textos, ainda que encenados numa capital culturalmente "educada" como Porto Alegre encontram certa resistência do público. Por que?
Luciano Alabarse - Minhas peças têm sempre um grande público, atento, curioso, fiel. Não quebramos nenhum recorde de bilheteria, mas lotamos os teatros aonde nos apresentamos. As escolhas das peças são sempre minhas, traduzem minha vontade teatral. São textos brilhantes, de épocas diferentes. Eu monto Sófocles e Thomas Bernhard, Caio Fernando Abreu e Platão, Eurípedes e Lya Luft. Ou seja: dramaturgos de mão forte, escrita poderosa. E acredito que há um público cativo para essas peças graças à força dramatúrgica de sua escritura. Gosto de temporadas curtas, não estou nem um pouco interessado em longas temporadas. Alguns me cobram por isso, mas é um traço meu, sim, não há como negar.
Artistas da sua geração fizeram o papel de "bandeirantes" da cultura local. E hoje, você vê continuidade nesse processo?
Luciano Alabarse - Nunca pensei que a minha geração fosse comparada aos bandeirantes. Você está me enchendo de comparações surpreendentes. Quando comecei a fazer teatro, era diferente sem dúvida. O público bem menor que o público de hoje, os mecanismos de auxílio às montagens praticamente inexistentes, os teatros se contavam nos dedos. Hoje, há uma atividade contínua, estréias que se sucedem sem interrupção. Isso é um avanço? Provavelmente. Nem tudo é a oitava maravilha do mundo, mas há melhores condições de trabalho, sem dúvida. Não concordo com um jeito chororô de muita gente que faz teatro, sempre reclamando da vida, eternamente magoados com o mundo. Eu sou feliz com o meu trabalho, grato à cidade. Faço a minha parte, sem preguiça. E gosto quando alguém que eu não conheço me aborda pra falar do meu trabalho.
Diretores e dramaturgos:
Luciano Alabarse - Patrice Chéreau, Bob Wilson, pra citar gente de fora, que nos visitou há pouco e mostraram porque chegaram aonde chegaram. Antunes Filho ainda é maior referência da criação cênica brasileira. Aqui em P.Alegre, gosto do Oi Nóis, do João Ricardo, do Luiz Paulo, e de tanta gente mais. Seria uma lista infindável.
Alegria, medo, mágoa, rancor, pieguice, tesão, talento. O teatro já levou você pra terapia? E, funcionou?
Luciano Alabarse - Se tem algo que me ajudou a ser o cidadão que eu sou hoje, esse "algo" é minha atividade de diretor teatral. Nesse sentido, reduzir o teatro a terapia é totalmente descabido. Pra mim, é uma ferramenta de comunicação com o mundo, com o meu tempo, um jeito de criar mágica e poesia em tempos tão cínicos. Não gosto de pieguice, demagogia, tapinha nas costas. Não gosto, do mesmo jeito, de injustiça, falta de educação, reclamação descabida. O teatro é onde eu me sinto plenamente feliz, por maiores que sejam as dificuldades de produção e realização - e são muitas, sabemos.O teatro me ajuda, antes de mais nada, a compreender a mim mesmo e , por extensão, o tempo que me cabe viver. É insubstituível, na minha vida.
Porto Alegre por Luciano Alabarse:
Luciano Alabarse - A cidade que eu escolhi para viver. Nasci aqui, quero morrer aqui e, se houver reencarnação - e eu acredito que há -,voltar pra cá outra vez.
Discos voadores, corações partidos, nouvelle vague, Toda Nudez Será Castigada - o filme do Jabor. Delírio é poesia? E, vale vivê-los?
Luciano Alabarse - Uau, Zé. Você é um poeta. Se todos os jornalistas tivessem esse preparo poético, estaríamos mais felizes todos. Poesia é a minha prova dos nove. Sem poesia não é possível viver. E não estou só falando de versinhos e frases magníficas: estou falando de atitude de vida, escolhas, olhares. Que a poesia nos atinja a todos e nos transforme para homens melhores do que somos, não? Pra mim, é como eu escolhi viver: atento para o momento onde a beleza se revela. Como diretor, é isso o que eu persigo.