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Zé Adão Barbosa

21/10/2009 - SATED/RS

Internet, cinema, TV por assinatura, informação fácil e instantânea. Por que ainda vale a pena ir ao teatro?
É uma experiência artística muito profunda, ver o ator ao vivo, em risco, diferente de todas as outras citadas.

Eu considero a tua geração, mais do que a anterior e, das que vieram depois, emblemática na cultura artística local. Como você pensa isso?
Na verdade cada geração tem a sua real importância. A minha teve o privilégio e o terror de viver e retratar um período negro da história do Brasil, o discurso era outro, a vontade de ser ator era pra revolucionar e não pra ser ator de novela (rs). A dramaturgia era riquíssima e não tínhamos as facilidades que se têm hoje em nível de produção.

Das vezes em que assisti à cerimônia de entrega do prêmio açorianos, sempre me causou um certo constrangimento, o tom de descaso (se atitude nonsense fosse "brinque de ser sério e leve a sério a brincadeira, tudo bem) que alguns artistas dão ao acontecimento. Como público, me parece, de certa forma, a pouca importância que eles dão ao próprio trabalho e um desrespeito a quem paga para assisti-los. Estando do outro lado, como artista e recebendo esses mesmos prêmios, qual é a avaliação que você faz dessa questão?
Ih, cara, não sou muito aficionado por prêmios, apesar de ter ganho alguns. Acho que o artista deve cumprir sua obrigação com qualidade e dignidade como qualquer outro profissional. Prêmio faz mal pra cabeça de quem mantém a cabeça fraca. Cria disputa, inveja e AINDA é muito mal pago. (rs)

Você é um ator de comédia extraordinário. Assim como o Renato Campão, e eu nunca acostumo com o Del, que é outro gigante do gênero, faz um caminho curioso dentro desse universo, da gargalhada escancarada, para um humor (quase ) minimalista. O "Zoo", peça do Edward Albee, que vocês encenaram juntos, foi um divisor de águas nesse processo?
Antes do Zoo eu já tinha feito A Lição do Ionesco (um professor psicopata), o Memory Motel (o Bukowski), A História do Soldado do Stravinski (o Diabo), Viagem ao Centro da Terra do Marquês de Sade (um conde maléfico), como vês, o drama esteve muito presente na minha vida. A comédia é outra tesão.

Sem querer ser filosófico e blasé, eu entendo que quem tinha vinte e poucos anos na década de 80, pós hippies e batalhas ideológicas, ainda que depois, cultivada a cultura dos bons e dos maus, mantém uma "ideia" de juventude muito propriamente. Zé Adão, como é o "envelhecer" pra ti? Se é que ele existe!
Claro que existe criatura, tenho 52 anos!!! (rs) Não me preocupo com a idade e sim com o tempo que me resta pra viver a vida e trabalhar muito.

Sucesso e fracasso. O primeiro, numa primeira leitura, o esperado, confortável. Mas, às vezes, aquilo que se acreditava não dá certo, ou mesmo, não alcança o resultado desejado. Como você administra as duas situações?
Encaro como uma experiência errada, um bolo abatumado. Jogo no lixo e faço outro bolo. É uma prova inequívoca que nem talento supremo, nem prêmios, nem elogios te salvam de cometer uma boa cagada. (rs)

Lembro, e, me corrija se eu estiver enganado, de você falando da sua admiração pelo cineasta e dramaturgo alemão, Rainer Werner Fassbinder. No livro "A Anarquia da Fantasia", quando responde sobre cinema e televisão ele diz: "...conto com um público que posso solicitar e provocar até o limite de suas possibilidades". Leia-se, então, um audiência exigente. Mas, dentro daquela cultura, me parece razoável. Você acredita num público assim aqui em Porto Alegre?
Acredito num público que busque esta troca de experiências, um público que goste de sair do teatro com novas ideias, novos conceitos, novas dúvidas, enfim, provocar o público deve ser a função principal da arte.

Fala-se muito, e sempre, de uma renovação do cinema brasileiro. Que as produções nacionais têm levado um público cada vez maior às sala. Me parece, na verdade, estar havendo uma confusão de linguagens, tudo é televisão, novela . Agora, parafraseando a primeira pergunta, vale a pena prestigiar o Cinema do Brasil?
Claro, temos um cinema maravilhoso, grandes diretores e filmes brilhantes. O cinema brasileiro não leva público porque as pessoas ainda cultuam o que vem de fora, a meca de Hollywood. Acredito que filmes como Tropa de Elite, Cidade de Deus, Auto da Compadecida, Meu nome não é Johnny, entre outros, levam um público muito grande aos cinemas.

Porto Alegre e Zé Adão Barbosa:
Cidade do meu viver, a minha cara, o meu sotaque. Nasci e morrerei aqui.

Entrevista realizada por José Antonio Vargas: zapvargas@gmail.com

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