Arthur José Pinto
22/5/2009 - SATED/RS
Homens de Perto já é um clássico do teatro de comédia de P. Alegre. Em que citações você se inspirou para criar aquelas personagens?
Esteticamente, eles foram inspirados nos personagens do filme M.I.B "Homens de perto". Ganhei o título de presente do Néstor Monastério e desenvolvi as situações. Eles sintetizam de uma maneira bem humorada, as peripécias de três "Jorges": denominação do tipo de homem que não tem nada de metrossexual, übersexual e até nem gosta muito de falar sobre esse assunto. Um homem que não vê problema nenhum na mulher se realizar profissionalmente, desde que a casa esteja em dia. Que pede, com carinho, aquela cervejinha gelada, durante o jogo de futebol, etc...

A que você atribui à longevidade da montagem?
A graça de Deus e a graça da peça. Foi uma conjugação de fatores que deram certo. Capricho em todos os detalhes, desde a estréia, até o quinto ano. O cuidado e o profissionalismo na condução da divulgação, das apresentações. A disposição dos atores, diretor e técnicos sempre renovados em cada apresentação, por estarem convencidos do que estão fazendo: um espetáculo em homenagem ao público.
Você e o Néstor Monastério consolidaram uma parceria. Há, digamos assim, uma espécie de "interferência" entre o trabalho de vocês?
Há um diálogo fácil entre nós. O Néstor é muito experiente e tem, sempre, muito a ensinar. Ele me dá liberdade para criar, mas, juntos, trabalhamos para deixar o espetáculo o melhor possível.
Não fosse, também, pelo desempenho daqueles atores,especificamente, Inimigas Íntimas e Homens de Perto teriam tido o mesmo resultado?
Como saber? Talvez não. A medida do resultado sempre é conseqüência do trabalho de todos. E os atores (sem trocadilho) têm papel preponderante. Seria diferente, posto que as pessoas seriam outras.
Chaplin, Harold Loyd, Os Três Patetas, independentemente de estilos e só para citar alguns, criaram tipos de comédia que são determinantes no gênero pelo mundo afora. E, no Brasil?
O Brasil tem seus ícones do humor. Os saudosos Grande Otelo, Oscar ito, Anquito, Walter D'Ávila e a irmã, Ema D'Ávila (ambos gaúchos). Chico Anízio, Jô Soares estão puxando, graças a Deus,uma nova geração de humoristas e comediantes que tem se destacado na mídia por estarem propondo novas estéticas e fazendo bem as fórmulas tradicionais.
Quando é que o humor não tem graça?
Cai fulminado. É morte súbita. Não tem pistolão, que dê jeito. Se o cara não tem graça, babaus.
O que é "inferno e o céu de todo dia" do artista na produção de cultura numa cidade como Porto Alegre?
O CÉU são os artistas. Porto Alegre é pródiga em gente boa: bons atores, diretores, coreógrafos, dançarinos, músicos, cenógrafos, figurinistas etc. O Inferno é a disputa na captação dos poucos recursos, poucos espaços adequados, equipamentos inadequados e a falta de um projeto de cultura que contemple a classe artística e o público.
A geração de artistas a qual você faz parte ainda é a "cara" do teatro e do cinema local. Você percebe um movimento novo de pessoas se impondo nessa direção?
O movimento é enorme, intenso e bem-vindo, graças a Deus. Tem gente nova que dá gosto ver como está levando a sua carreira. Jovens cineastas formam-se a todo o momento, propondo seus trabalhos com qualidade e entusiasmo. E o bom do nosso ofício é isso: não tem prazo de validade. O aprendizado é recíproco. Há espaço para todos.
Sobre o ensino acadêmico e oficinas na formação de atores e profissionais da área:
O DAD é uma referência nacional, tanto na graduação quanto na extensão e pós. Uma faculdade tradicional, com base sólida que conta com um grande quadro de professores doutores, mestres, especialistas. Acho que entrar na faculdade de teatro é o melhor caminho para a formação do profissional em teatro. Mas não é o único. Os cursos e oficinas mantidos pelo TEPA, pela Cômica, pelo Depósito, pela Terreira, são ótimas opões de ingresso no mundo do teatro. Além de alguns profissionais independentes que, também, realizam bom trabalho de iniciação. Para aqueles que não ingressam na faculdade, o importante é se cercarem de bons profissionais que os ajudem a construir o seus projetos pessoais, a fim de não ficarem pulando de curso em curso sem um roteiro de formação.
A Usina do Gasômetro não tem mais só um por do sol. Tem cinema, artes plásticas, poesia e teatro. É um bom começo. Mas, não é o bastante para uma grande cidade. É uma questão de gestão política. Na opinião o poder público tem feito um bom trabalho nessa área?
O pessoal da Usina faz um trabalho bárbaro. Mas falta muito a ser feito. Valorizar o teatro - como toda a produção artística da cidade - é uma questão de investimento em cidadania. Mais do que obrigação, é uma necessidade do poder público. Arte e cultura incidem, de forma contundente, na qualidade do povo e sua participação no processo democrático. Temos um Secretário de Cultura que entende do assunto. Mas falta investimento, espaços, programas e projetos. Porto Alegre tem enorme potencial para se tornar uma referência nacional em artes cênicas (dança e teatro).
Entrevista realizada por José Antonio Vargas: zapvargas@gmail.com