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Arlete Cunha

30/6/2009 - SATED/RS

Por que você quis fazer teatro?
Arlete Cunha - Às vezes penso que o teatro que me quis. Comecei na escola, nas aulas de comunicação e expressão e a experiência ficou impressa. Mais tarde, dando aula prá crianças, o teatro foi aflorando em sala de aula, de forma descompromissada, como um meio de atingir os objetivos pedagógicos. Então, fui incentivada pelas minhas atividades e por um grupo de mães/amigas que insistiram para que eu buscasse desenvolver isso, que elas diziam que era um dom.

Quais são os seus critérios na escolha de um novo trabalho?
Arlete Cunha -Um novo trabalho acontece, principalmente, por causa dos encontros. É na reunião com as pessoas que surgem as idéias para concretizar o que se quer dizer. E me interessa muito trabalhar com a diversidade de propostas, com a multiplicidade do ser humano e diferentes possibilidades que a arte teatral permite.

Algumas montagens te exigem mais como atriz do que em outras? Ainda, você se questiona sobre a intensidade do seu trabalho em determinados momentos?
Arlete Cunha - Com certeza, há diferenças no grau de exigência. A elaboração física, psíquica e emocional depende muito do onde e como se quer chegar. A proximidade com o público e a relação mais direta com ele, me deixam mais alerta, acredito mesmo que, mais viva. Buscar um outro estado do ser, olho no olho da assistência, necessita uma entrega maior. E independente do como se faz, busco sempre a verdade dessa relação. Quando eu parar de questionar a minha intensidade em cena, talvez seja a hora de encerrar a intenção da vida. Hahaha!

Alguns artistas saem para o centro do país em busca de um mercado, digamos assim, mais abrangente. Você chegou a considerar essa possibilidade?
Arlete Cunha - Não. A minha vontade, e que de certa forma ainda existe e está frustrada até hoje, seria passar um tempo em contato com o teatro do Zé Celso. Esse é um desejo mas que também, nunca me movimentei para realizá-lo.

Os autores imprescindíveis:
Arlete Cunha
- Imprescindível mesmo é literatura sobre teatro, os mais diversos autores, teóricos e práticos. Sempre! Mas o que tá colado é o que se está lendo no momento e por aí vai: Virginia Woolf (Passeio ao Farol), Paul Auster e Calvino. Ah, e os contos de Lovecraft. Aliás, adoro contos "ditos" de terror.

Hoje, uma dramaturgia "gaúcha" já faz diferença?
Arlete Cunha
- Não. Mas tem muita gente trabalhando com seus próprios escritos. Só que prá fazer diferença precisa muito mais.

As escolas e oficinas têm trazido bons profissionais às artes cênicas?
Arlete Cunha
- Certamente! E nas mais diversas áreas. E é só o fazer, a experimentação que proporciona a real dimensão do trabalho teatral. Claro que não dá prá colocar todas no mesmo patamar, mas quanto mais oportunidades existirem para que as pessoas possam contatar com o seu espírito criador, mais "talvez" tenhamos oportunidade de ter um mundo melhor.

Entende-se, muitas vezes, por teatro, a cumplicidade e a compreensão imediata do público, o riso fácil, etc. Mas pode ser bem mais do que isso. E, pra você, o que é?
Arlete Cunha
- O teatro prá mim é reapreender a realidade. Abre-se uma brecha no tempo e espaço cotidianos para tentar tocar no humano, no que há de bom e terrível nisso. Então não pode ser superficial, tem que tocar nas emoções e nos sentidos. O verdadeiro teatro é aquele que te tira da tua pasmaceira habitual, dos teus pensamentos e lógica habituais para ser engolfado por outras vibrações que nos levam a sentir: "Nossa é isso!"
A vida pode ser mais do que a nossa compreensão rasteira permite.

Você lançaria mão da sua imagem de artista na veiculação de uma campanha política?
Arlete Cunha - Ah! Não! Não conseguiria ser verdadeira vendendo um peixe que não me cabe. Parto do princípio que se pode ser bom prá ti, tem que ser possível ser bom prá mim também.

Porto Alegre acolhe bem seus artistas? E, alguns ou muitos motivos para se viver nessa cidade.
Arlete Cunha - Porto Alegre não é um porto só. É muitos. Então por vezes, dependendo das circunstâncias, somos embalados pela impressão de que esse é um canto do mundo onde poderemos realizar as nossas inquietações e e que elas ecoarão fluidamente reverberando na vida da cidade. Mas não. É sempre aos tropeços. Algumas experiências profundas e significativas ganham mais espaço fora daqui. Mas por ser vários, tem-se muito espaço para trabalhar nesse porto. Mas tem que cavocar! Prá mim, um bom motivo, é a efervecência. Tem sempre algo borbulhando, não são águas paradas.

Entrevista realizada por José Antonio Vargas: zapvargas@gmail.com

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