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Renato Del Campão

Renato Del Campão – 30 anos de garra e sucesso

15/9/2009 - SATED/RS

Entrevista realizada por Reissoli Moreira

Conheci o Renato quando ele se chamava apenas Renato Campão. Fui convidado, na época, por Zé Adão Barbosa para fazer figuração no espetáculo Zôo, Um exercício dramático sobre Edward Albee, que foi montado especialmente para comemorar os 15 anos de carreira dos dois atores, Renato Campão e Zé Adão Barbosa. Hoje, seu nome artístico passou a ser Renato Del Campão, e já se passaram outros 15 anos.

Autor de diversas peças de Teatro, também dirigiu vários espetáculos, tendo seu reconhecimento com os prêmios Tibicuera, Sated e Açoriano. Realizou belíssimas interpretações, em trabalhos como: Ping Pong em Acapulco, Jogos na Hora da Sesta e Navalha na Carne, entre muitos. Sua especialidade, Humor, e humor negro, também. Foi autor de memorial de Maria Moura, mini série de grande sucesso da Televisão. Então, nesta entrevista, nós vamos conhecer um pouco mais da vida e obra deste trabalhador das Artes Cênicas de nossa cidade.

Reissoli Moreira - Renato, por que Renato Del Campão?
Renato Del Campão -
Fiz numerologia com Thania Cavalheiro: a soma das minhas vogais e consoantes davam 5, pois a soma era 3 e 2 . Agora com o acréscimo passou a ser 1 e 7, cuja soma da 8, o infinito. Meus sobrenome Campão é de origem hispânica, é o nome de um mármore que só encontrada nos Montes Pirineus, que divide a França e a Espanha. Quando ela me indicou a modificação, achei estranho... mas sinceramente, me sinto bem melhor agora. Também fez parte de uma renovação na minha carreira: do visual ao nome.

Reissoli - Bem, você trabalha desde os 15 anos fazendo teatro, o que mudou de lá pra cá? 
Renato -
Tudo! Comecei a fazer teatro na época da Censura Federal, onde fazíamos ensaio geral pra Policia: era constrangedor! Aprendi na prática de tudo um pouco em teatro, da cenografia a iluminação,porque era integrante de um grupo de proposta inovadora, anarquista, a CIA TRAGICOMICA BALAIO DE GATOS.

Foi nesse grupo que comecei meus primeiros roteiros. Depois de um curso relâmpago com o Asdrúbal Trouxe o Trombone, com Hamilton Vaz Pereira, Regina Casé, Luiz Fernando Guimarães, Perfeito Fortuna, Patrícia Travassos e Evandro Mesquita, conheci alguns dos meus futuros parceiros por aqui. Cai de para-quedas na Oficina, nem sabia que seria ator pra sempre. Eu era o mais jovem do grupo, muito precoce mesmo. Mas lembro, que minha estreia nos Pavilhões da Festa da Uva, no Festival Cio da Terra, foi espetacular. Uma multidão nos assistiu! Os tempos eram outros, poucos espaços na cidade pro teatro, mas havia o trabalho de grupo, coletivo, artesanal. Os espetáculos locais eram mais prestigiados, a classe se assistia mais. Hoje em dia, percebo que a novíssima geração não se preocupa em assistir os veteranos, faz parte do aprendizado, ser humilde e constatar que atores mais experientes podem ensinar muito... Paciência!

A maioria ignora ou tenta disputar com quem chegou antes... Pura burrice! Não haviam festivais de teatro igualmente por aqui, o primeiro deles o ENCONTRO RENNER DE TEATRO, surgiu na metade dos anos 80. Era um festival que valorizava muito mais a arte local, ao contrário deste promovido pela Prefeitura hoje, onde o Internacional e o Nacional ocupam 70 ou 80% da grade. Fora o nepotismo e a curadoria tendenciosa, que elitizou tudo. Não se discute teatro nesse Festival, nem o Ponto de Encontro rende, mas isso é outro assunto... Acho que a mídia igualmente supervaloriza o que vem de fora e até existe um tipo de público que se recusa em assistir o que é feito aqui, tem fobia.

Reissoli - Você trabalhou com Luciano Alabarse, Marcos Barreto, Zé Adão Barbosa, Patsy Cecato, Lauro Ramalho, Roberto Oliveira, entre muitos. Quem é que te marcou, te ajudou, que você gostaria de agradecer ou quais as pessoas que te ajudaram a ser quem você é? 
Renato -
Estudei com grandes artistas: Lennie Dale, Marcio Vianna, Augusto Boal, Fernando Peixoto, Suzana Saldanha, Lia Robato, o mímico Jam Arturo Marin, com as norueguesas Catherine Khan e Anne Klovolt... Tanta gente!

Acho que sempre tenho alguma coisa a mais pra aprender, ao contrário de outros atores que se acomodam e se recusam em aprender mais. Os integrantes deste meu primeiro grupo me ensinaram muito, foi uma grande troca: Jaime Ratinecas, Neka Menna Barreto, Ângela Dip, Patsy Cecato, Lila Vieira, Luciene Adami, João Carlos Castanha, Tina Dischinger, Elcio Rossini, Kátia Prates, Verlaine Pretto, João de Deus, Flu, Carlos Eduardo Miranda. Minha parceria de anos com Eduardo Kraemer, também. Mas agradeço muito a minha falecida mãe: que aprendeu e aceitou a minha escolha e percebeu em mim, essa vocação, essa realidade.

Reissoli - Como você vê as pessoas que estão começando agora, que conselho você daria? 
Renato -
Leiam. Quem não lê, não consegue articular. A pontuação é importantíssima, a pausa igualmente. Quem não pratica a leitura, não consegue encontrar a intenção certa. Quem não assiste teatro, não faz teatro. Ser preconceituoso também não combina com este ofício. E quanto a humildade, a gratidão e o respeito, nem preciso argumentar mais.

Reissoli - Você tem uma trabalho forte, que já vem de tempos com Eduardo Kraemer, qual é o segredo para uma boa parceria? 
Renato -
Respeito e tolerância. Sem confiança não existe amizade tampouco.

Reissoli - Com Relação a grupos de Teatro, o que você tem a dizer a respeito ? É melhor trabalhar sozinho ou em grupo? 
Renato -
Tanto faz: depois de 30 anos realizei meu primeiro monólogo APARECEU A MARGARIDA. Comecei com a criação coletiva, trabalhei com alguns diretores, como ator convidado também. Com o TEATROFÍDICO realizamos trabalhos com elenco de 12 , 10 ,6 , 2 atores até a Margarida. Nosso próximo trabalho A SERPENTE, de Nelson Rodrigues tem 4 atores no elenco.

Reissoli - Você trabalhou com várias pessoas em Porto Alegre. Alguns abandonaram a carreira, outros estão aí, muitos se destacaram. Qual é a fórmula para nunca ter parado. Você chegou a pensar a desistir alguma vez ou chegou a fazer outra coisa que não estivesse relacionada ao teatro pra poder sobreviver?
Renato - Já pensei em desistir diversas vezes, mas percebo que ser ator independe de palco. Fiz Publicidade na PUC, trabalhei em inúmeras outras atividades ligadas ou não ao teatro, direta ou indiretamente . Certamente, terei outra profissão paralela mais adiante, mas ainda é segredo, não posso contar!

Reissoli - O Teatro Gaúcho sempre andou com as próprias pernas. Atores e companhias se desdobram para montar seus trabalhos, que na maiorias das vezes serve apenas de vitrine. As leis de incentivo, que seriam para fomentar a diversificação cultural e apoiar quem realmente trabalha no teatro, são usadas para realização de eventos e grandes produções, com grandes nomes, geralmente do eixo Rio/São Paulo. Como você vê isso e quais as suas perspectivas para o Teatro aqui no Rio Grande do Sul? 
Renato -
Sempre acharei o atual, melhor que o passado. Tempos de globalização ,de Internet. Com o Projeto Usina das Artes,da Usina do Gasômetro e a possibilidade de fomentação da linguagem de grupo apoiada pelo Município, as coisas tendem a melhorar. Mas acho que ainda existe uma ditadura cultural que insiste em restringir,em afunilar, em transformar o teatro num evento burguês, sem ressonância alguma. Nunca tive cargos públicos, nunca me apropriei indevidamente de nada. Também poucos espetáculos patrocinados por Fundos de Apoio ou Prêmios de Incentivo, muitas vezes paguei do meu bolso pela produção e recebi tudo de volta pela excelente bilheteria, mas também tive fracassos.

Acho também que a muita indiferença pelo ator autodidata, que aprendeu na prática, fora do departamento de Arte Dramática da UFRGS. Aliás, percebo muita resistência pelo elemento que está fora deste sistema: o Prêmio Açorianos é uma festa do DAD, basicamente: jurados e premiados saíram de lá. E isso é apenas um exemplo. Não é produtivo... Mas este dualismo acompanha a nossa cultura de gaúcho: ou você é chimango ou maragato.

Reissoli - Na questão de espaços e salas, para apresentação de espetáculos e ensaios, você sente alguma restrição ? O que o poder público tem feito, na sua visão, para auxiliar grupos de teatro e artistas?
Renato - Nunca tive uma sede e de 5 anos pra cá, estou conseguindo ensaiar e produzir meus trabalhos numa sala de 60 lugares, onde ofereço de contrapartida espetáculos com preço acessível, entrada franca ou contribuição espontânea, lá na Usina. Existe certamente um outro público, que deseja ver teatro, mas não vai pelos altos custos. É um público alternativo, que pode nem frequentar SESI, BOURBON COUNTRY, CIEE ou THEATRO SÃO PEDRO, mas que na Usina respira e vive o teatro.

Reissoli - Como você definiria o atual momento do teatro gaúcho? E também em comparação com o resto do país? 
Renato -
É complicado, o mercado oferece semanalmente ofertas nacionais e internacionais, com atores de televisão ou mitos. Mas a qualidade dos atores e técnicos começa a atravessar fronteiras. Hoje em dia, você pode viajar e trabalhar em outro lugar e voltar. A qualidade de vida aqui é bem melhor. Minha estreia na TV GLOBO foi daqui mesmo: escrevi tudo sem arredar o pé daqui.

Quanto a qualidade, é uma bola de neve. Os espetáculos de fora tem melhor acabamento porque tem valores maiores de patrocínio, oferece grandes estrelas para captarem recursos. O resultado, é que muitas vezes ficamos atrás porque nosso valor de ingresso também é inferior ao cobrado pelos “estrangeiros”. Uma prova disso é o que o EM CENA paga pro artista local e para uma atriz como Isabelle Huppert: enquanto um de nós ganha 4 mil reais, ela recebe 400, fora toda a mordomia.

Reissoli - Quanto a questão do público, você vê um reconhecimento do seu trabalho?
Renato - Não posso me queixar. Tenho um público fiel, que sempre prestigia o que faço, que percebe em mim um estilo provocador. Fico lisonjeado.

Reissoli - Você já fez grande sucesso de bilheteria, com grandes comédias. Como é essa relação entre fazer algo pensando em ter público e algo que possa fazer com que as pessoas reflitam um pouco mais, mas que nem sempre tem esse apelo? 
Renato -
Já fiz espetáculos comercias e dramas intimistas. Meu currículo perambula pelos grandes autores, mas adoro comédias rasgadas também. Mas aprendi que sucesso não se fabrica. Detesto também o artista que tem preconceito pela comédia. Os grandes atores são sempre grandes comediantes, que surpreendem ao atuarem em drama.

Reissoli - Qual a sua grande comédia, que você considera a melhor e qual dos seus trabalho você destacaria? 
Renato -
Não considero as melhores, mas CARRIE A HISTÉRICA, que fiz com Zé Adão Barbosa nos anos 80, ficou quase 3 anos em cartaz; o VIVA A GORDA foi um fenômeno também muito antes da BAGASEXTA e BONECAS A BEIRA DE UM ATAQUE DE RISOS, me deu meu segundo Prêmio, Açorianos de Melhor Espetáculo, e causou polêmica que um musical de temática gay dividisse o título com um drama como ENTRE QUATRO PAREDES. Ouve até gente que torceu o nariz... Mas acho que foi interessante pra cultura local premiar esse trabalho: sem diversidade não somos nada!

Reissoli - Na Cia Tragicômica Balaio de Gatos, você viveu uma fase de criação importante, através de improvisações, como é que você vê isso hoje? Esse periodo foi o mais importante? 
Renato -
Não acho que exista um momento mais importante: ele ainda está por vir.

Reissoli - Em Viva a Gorda, que foi um grande sucesso em sua carreira, lotando até ginásios, o que não era comum na época. Qual foi a razão do sucesso, na tua opinião, e quem trabalhou contigo? 
Renato -
Espetáculos que oferecem interatividade são sempre os mais apreciados pelo público. Hoje em dia existem aos montes. Portanto um programa de auditório no teatro, só poderia render como rendeu. A persistência da atriz Eliane Steinmetz, a Gorda, foi muito importante e Ana Fontes na produção igualmente.

Reissoli - Uma das comédias mais engraçadas que assisti, onde você atuava ao lado de Lila Vieira, Cinturão de Fogo, que teve apenas duração de uma temporada, não possui registro. Por que aconteceu isso? Por que este projeto não foi adiante? 
Renato -
Gostaria de te responder a pergunta, mas não posso. Melhor você entrevistar a Lila e perguntar isso pra ela. Eu e Léo Ferlauto, também gostaríamos de saber... Muitos são os fãs de Cinturão, você não é a primeira pessoa que elogia a peça.

Reissoli - Quem você destacaria, no atual momento, que tem realizado um bom trabalho ou importante? 
Renato -
Prefiro não citar nomes.

Reissoli - Você tem realizado somente teatro, nos últimos tempos, tem escrito mais algumas peças? Qual será seu novo projeto e suas expectativas? 
Renato -
Continuo APARECEU A MARGARIDA, circulando com a peça e trazendo no novamente aos palcos no 11 PORTO VERÃO ALEGRE, em janeiro. Em outubro estreio A SERPENTE, uma peça de Nelson Rodrigues, sobre traição, suicídio e adultério. Tenho duas peças escritas: um drama chamado PSICODRAMA e a comédia DIET MOCOTÓ, que ainda não foram encenadas.

Reissoli - Como você gostaria que fosse o cenário do Teatro, para quem trabalha nessa profissão, tanto dirigindo quanto atuando ou produzindo espetáculo? Estamos longe do ideal? 
Renato -
Perfeição é ilusória. Restringir a cultura local, segmentar e elitizar tudo, para mim é o principal problema. Também não existe um rodízio no poder: são as mesmas pessoas que lideram há anos e suas visões restritas atrapalham a modernidade, a renovação.

Reissoli - Em termos de dramaturgia, o Rio Grande do Sul tem bons representantes, mas não muitos e, me parece que ainda falta alguma coisa. Você já escreveu várias peças de teatro e esta sempre criando. Você acha que este campo de trabalho tem retorno, falta incentivo ou estamos no caminho certo? 
Renato -
Tem retorno como qualquer outro. Também escrevo para a televisão: alguns roteiros que fiz foram filmados pela RBS TV, como a adaptação que fiz de CAMINHOS CRUZADOS, de Érico Veríssimo, em 2007. Mas vale a pena registrar que o PRÊMIO CARLOS CARVALHO DE DRAMATURGIA, existe a tanto tempo e nunca premiou um gaúcho. São poucos os que insistem, e novos talentos surgem, mas acho que o texto é a base de tudo e muitas vezes não é valorizado.

Reissoli - Você participou de várias oficinas, formando atores, grupos, inclusive ministrando cursos pela descentralização da cultura. Você acha válido esta iniciativa? Em termos de resultado, estes projetos ajudam a transformar a realidade das comunidades?
Renato -
Transformam, mas o problema complica quando o oficineiro se afasta da comunidade, raros são os grupos que continuam sem a liderança. E sem autonomia, nada vai pra frente.

Reissoli - Seu último trabalho em APARECEU A MARGARIDA teve um reconhecimento do público e de crítica. Você atriui isso ao texto ao a montagem? Quais foram as dificuldades pra realizar este trabalho, tanto em relação ao personagem, que é uma mulher, quanto a produção? 
Renato -
Foi o trabalho mais complicado que fiz até hoje e que me exigiu mais. O comparativo a grandes divas, o peso de uma peça escrita há 35 anos atrás e a mais vendida internacionalmente. O autor, ROBERTO ATHAYDE foi muito generoso e confiou plenamente em mim. Realizei sem apoio: fui desprezado pelo FUMPROARTE, duas vezes tendo 5 votos a favor e um contra, ao solicitar 30 mil reais para produzir a peça, tendo 30 anos de carreira. Fui indicado ao Prêmio de Melhor Ator e também não fui escolhido (essa já é a quarta vez como Melhor Ator e já concorri 4 também como coadjuvante e nunca fui o premiado).

Não faço teatro para ganhar prêmios. De qualquer forma o reconhecimento aconteceu e meu prêmio maior é a peça continuar em cartaz, ao contrário de muitos premiados, que depois de receberem as honrarias retiram suas peças de cartaz. APARECEU A MARGARIDA também não estará no POA EM CENA, até porque há dez anos não sou convidado, me transformei no inimigo público número um da sua curadoria, que me rejeita e me persegue todo esse tempo. Felizmente, no Brasil e pelo Mundo existem outros Festivais de curadoria com mente mais aberta.

Reissoli - Com relação ao FUMPROARTE e a nova lei municipal criada pela câmara de vereadores, para incentivar grupos de Teatro com mais de cinco anos, você tem algo a questionar? 
Renato -
Só em agradecer: não votei em José Fogaça na primeira vez que foi eleito, mas descobri nele alguém interessado no que se faz aqui. Também não possui ranços com artistas, porque morava em Brasília, e chegando aqui, como homem inteligente que é, separa o pessoal do profissional, o que deveria ser feito por outros políticos, como também artistas (ou que ao menos , se dizem artistas). Transformar a Usina num Complexo Cultural ganhou toda a atenção dele e apoio, foi decisivo. Ele percebeu, ao contrário de outros, que é preciso unificar e não separar, desagregar. Sem essa união, sem esse respeito pelo outro, não haverá futuro algum. E isso é a mais pura verdade... Quem viver, verá!

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